sexta-feira, 26 de janeiro de 2007

de graça

Depois da postagem do Mestre Luís sobre o senhor Xu e o senhor Wang, não resisto partilhar convosco uns pedaços do capítulo que li ontem à noite sobre essa grande terra que, e faço estas minhas palavras, "a todas as outras terras pode fazer inveja".

"Todos os caminhos e servintias das cidades, villas, lugares, aldeas, & castellos, são de calçadas muyto largas, feitas de muyto boa pedraria, com colunas & arcos nos cabos dellas de muyto rico feitio, com letreiros de letras douradas, em que estão escritos grandes louvores dos que as mandaraõ fazer, & de hua banda & da outra tem poyais de muyto custo para descansarem os caminhantes & gente pobre, & tem muytos chafarizes & fontes dagoa muyto boa, & em lugares esteriles & pouco povoados tem molheres solteyras, que de graça dem entrada à gente pobre que não tem dinheyro: & este abuse, e abominação, a que elles chamaõ obra de misericordia, deixaraõ defuntos em capellas para descargo de suas almas, em terras, rendas, & foros aplicados a estes males, que elles tem para sy que são bens. Ouve tambem outros defuntos que deixaraõ rendas para que nos despovoados & nas charnecas aja casas em que se tenhaõ grandes luminarias de noite, para que os que caminhaõ não percam o tino de suas jornadas, & aja tambem vasilhas com agoa para elles beberem e casas para descansarem. [...] E a este modo saõ todas as mais cousas de que a natureza a dotou, assi na salubridade & temperamento dos ares, como na policia, na riqueza, no estado, nos aparatos, & nas grandezas das suas cousas, & para dar lustro a tudo isto, há tambem nella hua tamanha observancia da justiça, & hum governo tão igual & tão excelente, que a todas as outras terras pode fazer inveja, & a terra a que faltar esta parte, todas as outras que tiver, por mais alevantadas & grandiosas que sejão, ficão escuras e sem lustro. E quando algua vez me ponho a cuidar no muito que vy disto nas partes da China, por hua parte me causa grandissimo espanto, ver com quanta liberdade nosso Senhor partio com esta gente dos bens da terra, & por outra me causa grandissima dór & sentimento ver quão ingrata ella he a tamanhas merces, pois há entre ella tantos & tamanhos peccados com que continuaméte o offende, assi os das suas bestiais & diabolicas idolatrias, como tambem o da torpeza do peccado nefano, porque este não somente se permite entre elles publicaméte, mas por doutrina dos seus sacerdotes, o tem por virtude muyto grande. E das particularidades que há nisto se me perdoe não fallar aquy mais largo, porque nem o entendimento Christaõ o sofre, nem a razão consente que se gaste tempo & palavras em cousas tão torpes, tão brutas, & tão abominaveis."

Fernão Mendes Pinto, Peregrinação, cap. XCIX

4 comentários:

Anónimo disse...

Para quem não percebeu, o “peccado nefanno” é sodomia, e “que de graça dem entrada à gente pobre que não tem dinheyro” não é preciso explicar. Isto é que é serviço social, já no século 16.

LabetoleanaT disse...

Goncaloqueano, não te preocupes com a Maria Eduarda porque está tudo bem (acabei de falar com a Eugénia). Foi apenas uma lembrança de uma pirralhita que promete... e as meninas têm de descansar durante mais (talvez) 20 dias, até ao dia D.
Quanto ao que escreveste, é muito bonito, não é nada de mau gosto! E é mesmo bom este blogi, pq podemos mostrar as coisas mais bonitas , a seguir a outras coisas mais bonitas, depois de outras coisas tb mais bonitas.

Mestre L disse...

E vivam as coisas ainda mais bonitas!

H. Cardoso disse...

Meu caro Goncalo, acabas de te desgracar. E que isto cheira a... pedantismo. ;)

Mentira. Estou a gostar do blogue sim senhor. Cumprimentos a todas/os e forca que para a frente e que e caminho.